O recente relatório global do Citi para o setor imobiliário em 2026 traz à tona um tema que, à primeira vista, pode parecer alarmante: a escassez de gruas. Contudo, essa afirmação, longe de ser um sinal de crise, pode ser interpretada como um indicativo de um ciclo positivo para o mercado imobiliário brasileiro, que já registrou uma valorização de 73,5% no índice IMOB em 2025. A escassez de capacidade construtiva, exemplificada pela falta de gruas, reflete uma demanda crescente que supera a oferta atual.
O que a falta de gruas realmente indica
A escassez de equipamentos, como as gruas, é um sinal de que o fluxo de lançamentos imobiliários está superando a capacidade instalada. Em termos de ciclos econômicos, esse gargalo pode ser visto como um sinal bullish, indicando otimismo em relação ao futuro do setor. Essa situação, embora desafiadora, pode proteger os preços dos ativos já em construção, evitando um excesso de oferta que historicamente tem levado a correções abruptas no mercado.
Gargalos históricos e suas implicações
O Brasil já enfrentou gargalos semelhantes entre 2010 e 2012, quando o setor imobiliário experimentou um crescimento acelerado após os IPOs das incorporadoras. Naquela época, o INCC (Índice Nacional de Custo da Construção) disparou, com o componente de mão de obra subindo 8,73%, corroendo as margens das incorporadoras. O setor, que empregava 3,2 milhões de trabalhadores diretos em 2010, agora conta com apenas 2,7 milhões, uma perda significativa que se reflete na dificuldade de contratação que 82% das construtoras relataram no primeiro trimestre de 2025.
O verdadeiro gargalo: questões institucionais
Apesar das dificuldades com equipamentos e insumos, o verdadeiro gargalo que o mercado imobiliário brasileiro enfrenta não é físico, mas institucional. A Selic elevada, atualmente a 15% ao ano, encarece o crédito e afasta potenciais compradores. Além disso, a inflação de custos, com o custo da mão de obra acumulando alta de 9,88% em doze meses, pressiona as margens de quem já vendeu. A volatilidade política e econômica, especialmente em um ano eleitoral, adiciona incertezas que não podem ser resolvidas apenas com a importação de equipamentos ou a adaptação de métodos construtivos.
Conclusão
Embora o relatório do Citi identifique fundamentos sólidos para o setor, como vendas aquecidas e um orçamento robusto de R$ 144 bilhões para o MCMV, a sustentabilidade do crescimento do mercado imobiliário dependerá da capacidade do país em criar condições macroeconômicas favoráveis. A verdadeira resiliência do setor não reside apenas na disponibilidade de equipamentos, mas na criação de um ambiente econômico estável que permita ao setor operar em seu potencial máximo.




